Epistemologia e Arqueologia da Música Ocidental
Das origens pitagóricas ao sistema tonal consolidado
2.1 A Escola Pitagórica e a Harmonização do Cosmos
A fundação da teoria musical ocidental confunde-se com o nascimento da própria ciência filosófica na Grécia Antiga. No século VI a.C., Pitágoras de Samos e seus discípulos postularam que o universo era estruturado a partir de relações numéricas intrínsecas. Para a Escola Pitagórica, a música não era meramente uma manifestação estética ou sensorial, mas sim a expressão audível das leis matemáticas que governam o cosmos — conceito que se consolidou sob a denominação de Musica Universalis (Música das Esferas).
2.2 O Experimento do Monocórdio e as Proporções Matemáticas
O marco empírico que unificou matemática e música ocorreu por meio do desenvolvimento e estudo do monocórdio — um instrumento de laboratório composto por uma única corda esticada sobre uma caixa de ressonância, dotado de um cavalete móvel que permitia dividir o comprimento da corda em partes exatas.
2.3 A Transição Medieval, o Sistema de Modos e Guido d'Arezzo
Com a queda do Império Romano e a subsequente hegemonia cultural da Igreja Católica na Idade Média, o conhecimento musical grego foi filtrado e adaptado para o serviço litúrgico. O canto chão (ou Canto Gregoriano) estabeleceu-se como a textura musical dominante: uma linha melódica monofônica, desprovida de acompanhamento instrumental ou harmônico, cantada estritamente a cappella.
2.4 A Consolidação do Sistema Tonal no Barroco e o Cravo Bem Temperado de J. S. Bach
Entre os séculos XIV e XVII, a polifonia evoluiu para a ciência do contraponto, e a percepção musical começou a mudar da dimensão puramente horizontal (melódica) para a vertical (harmônica).
"O grande manifesto técnico e artístico dessa transição foi a obra O Cravo Bem Temperado (1722), de Johann Sebastian Bach. Bach compôs uma coleção de prelúdios e fugas cobrindo todas as 24 tonalidades maiores e menores possíveis."
— Renê Aparecido Bueno, Capítulo I